Ed. 06Algodão & Bioinsumos
Mercado
Capa da Edição 06 do AGROMV Semanal: fardos de algodão prensados em pátio de beneficiamento, prontos para exportação
Algodão & Bioinsumos · CBA 2026

O Brasil dobrou a produção de algodão em 20 anos

No painel que reuniu o CEO da SLC Agrícola, Aurélio Pavinato, com Abapa e Agroconsult no Congresso Brasileiro do Algodão, o Brasil confirmou o maior VBP da série histórica do algodão: R$ 36,36 bilhões. O crescimento veio de eficiência produtiva e expansão de área. O biológico, segundo o próprio Pavinato, é uma das alavancas para sustentar o próximo salto.

R$ 36,36 bi VBP do algodão em 2025, maior valor da série histórica do Mapa
1 mi → 2 mi ha Área de algodão no Brasil, dobrada em 10 anos
+90% De amostras on farm sem o microrganismo esperado, em levantamento da Embrapa

O painel que resumiu a safra em uma frase

Na quarta-feira, 23 de setembro, segundo dia do 15º Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte, o palco reuniu quatro nomes que decidem boa parte do que acontece na cotonicultura nacional: Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola, maior produtora do país; Alessandra Zanotto Costa, presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa); Alexandre de Marco, do Grupo BDM; e André Pessoa, CEO da Agroconsult, que conduziu o painel "O algodão brasileiro no tabuleiro global: perspectivas e estratégias para a safra 2026/27".

A frase que resumiu o debate foi de Pavinato: "A mudança é estrutural. O Brasil está conquistando o mercado internacional em consequência da nossa alta eficiência produtiva e do nosso sistema produtivo."

Os números por trás da frase

O Valor Bruto da Produção (VBP) do algodão brasileiro chegou a R$ 36,36 bilhões em 2025, o maior valor da série histórica calculada pelo Ministério da Agricultura. Em 2026, o resultado parcial, somando janeiro a agosto, já está em R$ 35,14 bilhões, o segundo maior da série, mesmo sem o ano fechado.

Gráfico de barras mostrando o Valor Bruto da Produção do algodão em R$ 36,36 bilhões em 2025, o maior da série histórica, e R$ 35,14 bilhões no acumulado parcial de 2026
O valor gerado pelo algodão bateu recorde em 2025 e segue perto disso em 2026. Fonte: Mapa, dados apresentados no 15º CBA, 23/09/2026.

Pavinato colocou a transformação em perspectiva de década: o Brasil foi de 1 milhão para 2 milhões de hectares de algodão nos últimos 10 anos. E citou um número que explica por que o mercado internacional prestou atenção: "Nos últimos 20 anos, o consumo e a produção mundial praticamente não mudaram. E o Brasil mais que dobrou a sua produção para atender o mercado."

A posição do país no ranking mundial também mudou de patamar. A China segue na liderança em produção, com 7,29 milhões de toneladas de pluma, seguida pela Índia, com 5,19 milhões. Mas o dado que chamou atenção no painel foi outro: Mato Grosso, sozinho, superou os Estados Unidos em produção de algodão pela segunda safra consecutiva, com 2,9 milhões de toneladas contra 2,79 milhões dos norte-americanos. Um único estado brasileiro produz mais pluma que o país que por décadas foi sinônimo de algodão no mercado global, e com qualidade superior.

Segundo Pessoa, cerca de 40% da fibra brasileira exportada tem a China como destino. E o Brasil converteu o fato de colher duas safras de algodão por ano, uma após a soja e outra em sequência, em vantagem competitiva: fornecer pluma ao mercado internacional nos 12 meses do ano, algo que concorrentes de safra única não conseguem replicar.

Quanto essa área ainda pode crescer

Para a safra 2026/27, as projeções apresentadas no CBA convergem para o mesmo número, por caminhos diferentes. A Agroconsult projeta alta de 7% na área. A Abrapa, pela fala do presidente Gustavo Piccoli, trabalha com uma faixa de 8% a 10%. A SLC Sementes, por meio do diretor Gustavo Lunardi, projeta de 5% a 7%. As três estimativas desembocam perto de 2,2 milhões de hectares, o mesmo patamar da safra 2024/25.

Mas as três também vêm com a mesma ressalva: depende do clima. Lunardi foi direto sobre isso em entrevista durante o Congresso: o incremento de área de algodão só se confirma se o fenômeno climático não atrasar o plantio da soja. Como a maior parte do algodão brasileiro é semeado depois da soja, um El Niño que atrase a semeadura da oleaginosa, o mesmo risco que a Ed. 03 e a Ed. 04 já vinham tratando, encurta a janela do algodão e pode empurrar toda a expansão projetada para um patamar menor.

Some-se a isso a disponibilidade de crédito. O algodão tem custo elevado por hectare, entre sementes, fertilizantes, defensivos e operações mecanizadas, e depende de financiamento robusto. Mesmo com a perspectiva de receita melhor, a dificuldade de acesso ao crédito pode impedir que parte dos produtores amplie a área na proporção que planejou. É a mesma restrição de capital que já apareceu na Ed. 04, agora limitando o apetite de crescimento de outra cultura.

A alavanca que Pavinato citou

Questionado sobre onde ainda existe espaço para ganhar competitividade, Pavinato apontou uma combinação de agricultura digital, aplicações localizadas, maior precisão na adubação, uso de produtos biológicos e melhorias no manejo de fertilidade, pragas e doenças. Biológico entrou na lista do CEO da maior produtora de algodão do país como ferramenta de eficiência, não como opção marginal.

O mesmo Congresso, o outro lado do biológico

No mesmo dia, 23 de setembro, em outra sessão do CBA, o pesquisador Wagner Bettiol, da Embrapa Meio Ambiente, apresentou os números que explicam por que Pavinato pode contar com biológico como alavanca: a área tratada com bioinsumos no Brasil saltou de 151 milhões para 194 milhões de hectares em um único ano, alta de 28%. Bettiol foi além e projetou que os produtos biológicos podem responder por metade do mercado de defensivos até 2050.

Gráfico de barras mostrando a área tratada com bioinsumos no Brasil passando de 151 milhões de hectares em 2024 para 194 milhões de hectares em 2025, alta de 28%
A curva de adoção de biológicos segue subindo em ritmo de dois dígitos. Fonte: CropLife Brasil, apresentado no 15º CBA, 23/09/2026.

Mas Bettiol não parou no número de crescimento. Ele trouxe o alerta que deu nome à própria sessão: "Há uma tendência de crescimento nesse mercado, pois a sociedade está exigindo produtos desenvolvidos com mais qualidade e mais sustentáveis. Quem compra tem direito de exigir qualidade."

Por ser formado por organismos vivos, o bioinsumo só funciona se a concentração de microrganismos viáveis estiver correta e não houver contaminação. Isso vale tanto para o produto comprado pronto quanto para a multiplicação feita na própria fazenda, prática que a Lei 15.070/2024 dispensa de registro, deixando o controle de qualidade sob responsabilidade do produtor e do responsável técnico.

O Laboratório de Microbiologia do Solo e Biotecnologia Agrícola da UFMT, em Sinop, analisou 640 amostras de bioinsumos usados no norte de Mato Grosso entre 2020 e 2025, entre produtos comerciais, inóculos e multiplicações on farm. A pesquisadora Flávia Sampaio Alexandre, que apresentou os resultados, identificou agente contaminante em uma das avaliações. Ela não tratou o caso como isolado: "O futuro dos bioinsumos depende de confiança. E a confiança começa com a qualidade."

O precedente que sustenta essa preocupação é mais grave. Em 2022, pesquisadores da Embrapa analisaram amostras de fazendas em Mato Grosso e Goiás e encontraram que mais de 90% dos controladores biológicos produzidos on farm não continham o microrganismo desejado. Ou seja, na maioria dos casos testados, o produto aplicado na lavoura simplesmente não era o que deveria ser.

Leitura de campo

O crescimento de 151 para 194 milhões de hectares mede área tratada, não eficácia do que foi aplicado. Se a taxa de falha observada em 2022 se repetir numa fração relevante dessa área, uma parte considerável dos 194 milhões de hectares recebeu um produto sem o microrganismo ativo. A curva de adoção sobe; a curva de confiança precisa subir junto, e essa segunda métrica ninguém está publicando.

O que isso significa para quem compra biológico no algodão

Durante o mesmo painel de qualidade, o professor Galdino Andrade Filho, da Universidade Estadual de Londrina, cobrou do setor algodoeiro mais atenção aos bioinsumos desenvolvidos especificamente para a cultura, comparando o momento atual da tecnologia à desconfiança inicial que cercou os organismos geneticamente modificados, antes de passarem por pesquisa, regulamentação e avaliação de segurança. A cobrança de Galdino conecta direto com o que a Ed. 05 já mostrou: o algodão lidera a adoção de biológico no país, mas essa liderança está concentrada quase toda no tratamento de sementes contra nematoide, com o sulco de plantio ainda com espaço para outras categorias.

O discurso de abertura do Congresso, do ministro da Agricultura, André de Paula, resumiu o momento em uma frase: "O mercado internacional mudou: já não basta responder o quanto produzimos, precisamos demonstrar como produzimos." Essa frase vale para a pluma que sai do Brasil rumo à China. E vale, com o mesmo peso, para o biológico que entra no sulco antes da semente. Um mercado que cresce 28% ao ano só sustenta essa velocidade se conseguir provar, amostra por amostra, que o que está no rótulo é o que está no produto, e que isso se traduz em resultado prático no campo.

Racional

O algodão brasileiro bateu recorde de valor de produção em 2025 apoiado em eficiência produtiva e expansão de área, segundo o CEO da maior produtora do país. O biológico ainda não é a causa desse recorde, mas o próprio Pavinato o colocou entre as alavancas para o próximo salto. E o mesmo Congresso que discutiu essa aposta recebeu, no mesmo dia, o dado de que mais de 90% dos biológicos multiplicados na fazenda podem não conter o microrganismo esperado. Crescer em área tratada é fácil de medir. Crescer em confiança exige rastreabilidade que o setor ainda não entrega por padrão.